28.8.12

A Vida de Outra Mulher

Imagine você acordando e se deparando com o inusitado. Você está em um lugar que nunca havia visto antes, em uma cama que nunca havia deitado antes. Em uma casa estranha, com pessoas as quais você nunca havia posto reparo, com um grau de intimidade constrangedor.

Imagine você se olhando no espelho e perceber que envelheceu, assim, de repente. Seu corpo já não é mais o mesmo, seu cabelo não é aquele da noite passada. As coisas mudaram.

Você começa a tentar entender o que aconteceu e percebe que se esqueceu de 15 anos da sua vida. Em uma noite você tinha 26 anos e na manhã seguinte, 41. E percebe que nesses 15 anos você se tornou uma pessoa pior, diferente de toda a expectativa que se tinha na juventude.

Assim é A Vida de Outra Mulher, com interpretação brilhante de Juliette Binoche.




20.7.12

Na Moral

Ontem a Rede Globo tentou. Tentou colocar em pauta um tema que ~ ainda ~ é espinhoso para a sociedade brasileira: o casamento homossexual. E utilizou o programa do Bial, o “Na Moral”, para abordar o tema de maneira “descolada”. Mas na verdade, se mostrou bem descolado da realidade do que são, de fato, as coisas em se tratando do assunto.

A começar por convidado “formador de opinião” dizendo que tem amigo “que ERA hétero e VIROU gay”. Ora gente, como uma TV aberta se propõe a discutir o tema e passa informação errada para as pessoas? Ou ainda é difícil entender que não existe “virar”, não existe “opção”? O que existe é “assumir ou não”. Em tempos de discussão de órgãos públicos sobre a “cura gay”, Glória Pires, a “formadora de opinião” (e especialista no tema só porque fez o papel de uma lésbica no cinema), fez um belo gol a favor do time dos alienados: afinal, se um hétero vira gay, porque o inverso não pode ser possível? Evangélicos e Bolsonazis da vida devem ter delirado nessa hora.

Não contente, o programa promoveu a assinatura de união civil entre duas mulheres no palco. Simpático, importante, mas ao apelar para o clichê “caminhão vestida de homenzinho e feminina de vél e grinalda”, deu ainda mais pólvora para o canhão do esteriótipo gay e à carnavalização desse arquétipo social. E ainda nem deixou as meninas darem “aquele” beijo na boca, tendo elas que se contentarem com um selinho e um singelo beijo na teste. Gente, quem casa assim?

A cada edição, esse programa do Bial demonstra que existe exclusivamente para cumprir uma obrigação da emissora em discutir e colocar em pauta questões sociais. Mas evidencia ainda mais a falta de vontade em fazê-lo e fazê-lo bem. Abordar um tema desses (que vai muito além da opinião de uma artista global e de uma fantasia do imaginário social), da maneira equivocada como foi, pode ter o efeito inverso ao que os protagonistas da causa discutida desejam. Pode gerar mais preconceito ainda.

Não acho que o programa tenha promovido nenhuma evolução nas discussões sobre o tema. Nem sei se era esse o propósito. Ficamos na mesma, com um quê de “já que tenho que falar disso, vou fazer de qualquer jeito”. Mas o “qualquer jeito” aqui pode ser um belo tiro nos pés.

http://tvg.globo.com/programas/na-moral/videos

15.2.12

O samba também é branco

Há quem pense que o samba tenha sua origem exclusivamente na cultura negra, com suas raízes trazidas ao Brasil nos porões dos Navios Negreiros. Porém, os primeiros sambistas, ao contrário do que se imagina, tocavam instrumentos clássicos, liam partituras, participavam de bandas de jazz, adoravam ouvir tango e conhecer as novidades musicais dos cabarés parisienses.

“Pelo Telefone”, de Donga, o primeiro samba na história a ser gravado, tinha muito pouco do samba que hoje anima a Sapucaí. Lembrava mais um maxixe, o “tango” brasileiro, ritmo dançado derivado de polcas européias.

A cara que o samba tem hoje, de símbolo da “autenticidade nacional” e da resistência da cultura negra dos morros cariocas, é uma criação mais recente, fruto da necessidade de caracterizar a nação, que até o início do século passado não tinha identidade algum perante o mundo.

Essa necessidade republicana e positivista de 1900 fez da miscigenação a principal característica do povo brasileiro e deu ao negro (recém auforriado), que também fazia seu partido alto nos fundos da casa de Tia Ciata*, a exclusiva patente da origem do samba. A cara do Brasil.

*Tia Ciata: no início do século XX, quem fazia samba era considerado bandido no Rio de Janeiro. Por isso, para curtir o ritmo era preciso fazê-lo escondido. Então, a baiana Ciata cedia os fundos de sua casa para os bambas da época se encontrarem para os sambas. Assim nasceu a figura emblemáticas da ala das baianas, quesito obrigatório em qualquer desfile de Escola de Samba.

10.2.12

Preconceito. De novo.

O Ministério da Saúde, em campanha ao incetivo do uso da camisinha no carnaval, produziu e chegou a veicular o vídeo que mostra dois homens gays quase se beijando (perceba que eles nem chegam às vias de fato).



Veiculou e de repente resolveu achar que a exposição do filme era um equívoco e retirou do ar.

Chovendo no molhado: mais uma atitude que deflagra um preconceito tacanho, reflexo e estimulador do pensamento retrógrado de uma sociedade medievalesca como a nossa. É ainda pior quando a censura parte de uma entidade que tem por obrigação promover o esclarecimento das situações com lucidez, dissernimento e não simplesmente abafar uma realidade, que se não é aceita como natural, muito se deve à estes comportamentos padrão de entidades formadoras de opinião, como é um Ministério (que deveria estimular a luta contra o preconceito).

Muitos dirão: "ah, mas eu não gosto de ver cenas como essa em público nem mesmo entre héteros". Só que no caso dos gays, marginalizados e entubados em guetos pelas Augustas da vida, precisa mostrar sim. Precisa pôr a equação na mesa e falar sobre o tema abertamente. Se for diferente disso, esse ciclo preconceituoso nunca irá se fechar e iremos continuar discutindo esta mesma atitude imbecil lá no carnaval de 2189. E com essa mesma mentalidade hipócrita da tradicional família cristã brasileira.

19.1.12

30 anos de uma saudade que eu nem vivi



Elis Regina foi minha primeira grande referência musical (tirando aquelas musiquinhas infantis chatas que somos obrigados a ouvir desde nosso primeiro dia de vida). Diria que Elis foi minha primeira escolha consciente de música. E não faço a menor idéia de onde veio essa gosto tão grande pela Pimentinha: os discos dela não tocavam em casa, a TV e o rádio insistiam no Pop/Rock dos anos 80 e 90 e naquela época, internet não havia, não.

Mas o fato é que durante minha adolescência eu era viciado em Elis Regina. Ouvia absolutamente tudo dela.



Hoje, 30 anos de sua morte precoce e desnecessária, lembro dela (como se não lembrasse, invariavelmente, todos os dias de alguma canção dela distante na minha mente) com uma saudade que eu nem ao menos vivi. Eu, com 28, não tive a sorte de vê-la cantar contemporânea a mim.

Intérprete é o que ela era. E isso é muito mais do que ser uma cantora. Ela era uma espécie de cantora-atriz, com uma voz irreparável e uma atitude de palco que misturava técnica e emoção tão facilmente quanto misturar água e açúcar. E sua voz era um doce mesmo (a voz, porque o temperamento, dizem, nem tanto).



Tinha 36 anos quando morreu. E em 19 de janeiro de 1982 já havia passado metade de sua vida em estúdios, gravado 27 LPs, 14 compactos simples e 6 duplos e vendido algo em torno de 4 milhões de cópias. Deixou 3 filhos. Deixou uma nação sem voz e não me deixou ouvi-la se não em gravações, discos e memórias.



Clique Aqui para ler o Especial Veja sobre Elis Regina.

17.1.12

Eu não dirijo. E daí?

De todos os preconceitos que em algum momento eu possa ter vivido, o fato de não dirigir é o que alimenta o maior repúdio das pessoas em relação aos meus diferenciais frente aos padrões sociais.

Não dirijo porque busco ser socialmente responsável. De verdade.

Vivemos em um planeta que produz mais de 80 milhões de carros por ano, para que a indústria automobilística lucre estimados bilhões de cifras e faça a gentileza de entupir, sem pudores, as vias das principais cidades do mundo.

Trazendo para o nosso dia-a-dia:

Só em Sampa, estima-se que existam mais de 7 milhões de carros espalhados pelas ruas. Se imaginarmos que sua população gira em torno dos 13 milhões, salvo engano matemático, temos quase 1 carro para cada parzinho de paulistano.

Mas como estamos falando de uma gente solitária, nada solidária e bastante egoísta, faça o exercício de, no caminho do seu trabalho, olhar para o veículo ao lado (ou para dentro do seu próprio carro) e contar quantas pessoas estão lá dentro. A probabilidade da resposta ser UM é bem grande.

E aí haja fumaça, haja buzina, haja paciência, haja egoísmo.

Eu poderia passar laudas falando sobre o conceito de consumo colaborativo (ou carona), sobre meio ambiente, finanças pessoais e maneiras mais inteligentes de aplicar seu dinheiro (porque até agora ninguém me convenceu de que ter um carro é investimento, e não gasto. E dos mais filhos-da-puta – quem vai pagar IPVA este mês dá um “curtir”), para convencer as pessoas de que minha atitude não é tão insana quanto parece.

Todo mundo reclama do trânsito e todo mundo não aceita o fato de eu preferir andar a pé, de ônibus, metrô ou bicicleta. Corro o risco de perder vagas de emprego por esta opção: “imagina, um gerente de Marketing andando de ônibus por aí?” - pensam as consultoras de RH.

De novo: não dirijo porque busco ser socialmente responsável.

Mas, como sou ser humano, dos mais cretinos e clássicos, não dirijo porque também tenho uma preguiça danada de freqüentar as aulinhas enfadonhas da auto escola!

18.4.11

E essa campanha preconceituosa da Bombril, hein?

Querem um bom exemplo de propaganda preconceituosa? A Bombril, ao longo de sua história, vem se esmerando neste quesito. Olha aí o que ela aprontou dessa vez:







Eu só queria ver se, ao invés de mulheres achincalhando seu sexo oposto, fossem os homens que estivessem "cuspindo regra" sobre comportamento feminino: escândalo popular e pauta de discussão na pizza do Faustão, na certa!

Essa campanha da Bombril, estrelada por três humoristas brasileiras, é uma tentativa - escrota - de "rejuvenescimento" de uma marca que, durante quase 30 anos, fez juz àquilo que a propaganda brasileira mais gosta de fazer: afirmar paradigmas chulos impostos pela sociedade.

A marca que virou sinônimo de categoria de esponja de aço, usou e abusou do ator Carlos Moreno para ditar as regras de como ser uma boa e prestativa dona de casa, competente e dedica. Não sendo verdade que todas as mulheres desejam ou precisam ser assim, trata-se de pura balela preconceituosa.

Aí, de repente, quando finalmente resolve dar um chacoalhão na sua propaganda - que cá entre nós, já cheirava a naftalina -, ela opta por continuar sendo preconceituosa, pautando seu discurso, de novo, em cima de regras imbecis e pré-estabelecidas. Só que desta vez a idéia era exaltar justamente o oposto daquilo que sempre foi o carro chefe de sua conversa com o consumidor: antes defendia o paradigma da boa Amélia, agora, a imbecilidade do feminismo exacerbado e sem medida alguma. Contradição esta que denota, em primeira instância, um enorme equívoco estratégico de comunicação da empresa.

Agora, marketing à parte, essa campanha demonstra mesmo uma grande filha da putagem (desculpem, não acho outro adjetivo) ao se utilizar da fácil aceitação do humor para encorajar - isso mesmo, encorajar - preconceitos sociais que, no caso em questão, vão diretamente contra o sexo masculino. E é esse humor bobo e escrachado que torna todo este absurdo (porque qualquer tipo de demonstração de preconceito é um absurdo) muito mais “aceitável e tragável” para todos. Na verdade, uma grande lástima!